Fim
de semana agitado em todo país... Menos pra mim. Muito embora, presente e de
certa forma participante dessa agitação, reconheço que aplicador de provas por
duas tardes inteiras é um tanto estressante porque não se pode fazer nada e
mesmo falar, se pode pouco, porém isso me deu a oportunidade de fazer das
coisas que mais gosto: observar e pensar. E tudo o que ocorria, me fez refletir
sobre o significado de tudo aquilo, o famoso e tão comentado Exame Nacional do
Ensino Médio.
Como
professor que sou, faz parte de minha rotina avaliar, porém ao contrário do que
muitos pensam, os avaliados não são apenas os alunos já que o resultado de seus
estudos dependem de como as informações lhes foram compartilhadas e isso coloca
o docente também nessa grade de avaliação dividindo responsabilidades ao fim da
tal avaliação e no resultado obtido.
Pra
que serve a escola? A maioria das pessoas não pensa muito nessa pergunta,
embora não hesite em citar sua importância na vida de qualquer pessoa e da
sociedade como um todo. Se prestarmos atenção, será fácil perceber que os
poucos estudantes que se atrevem a
externalizar essa pergunta e são justamente aqueles que não gostam de estudar,
talvez os que não vêem significado para a escola, porém não é do espaço que
eles reclamam e sim dos métodos. Difícil alguém não gostar da escola. E para a
pergunta lançada a resposta de quase cem por cento das pessoas será: A escola
nos prepara para a vida.
Diante
dessa perspectiva já podemos citar uma falha. As crianças são matriculadas nas
creches por volta dos dois anos de idade e na escola em si, pelos cinco anos,
então a preparação para vida estaria atrasada já que a vida nesse momento já está acontecendo. Temos então uma preparação, se não atrasada, feita às pressas,
tumultuada já com a própria vida. Uma espécie de intensivo preparatório para
algo que ocorre paralelo àquilo que se estuda. A preparação para vida deveria
ser oferecida antes de a vida começar, talvez uma ação intra-uterina. A escola
deveria ser então não em turma e sim individual, salvo os gêmeos, trigêmeos, quadrigêmeos
etc. De forma que quando viéssemos ao mundo em si, já teríamos noção de tudo,
já que a preparação fora feita durante nove meses para que quando nascêssemos
fôssemos capazes (capacitados) de agir no mundo graças aos métodos de ensino e
aprendizagem de nossa tão eficiente escola. Entendem o que estou a dizer?
Percebem onde quero chegar?
O
que dizia nos três parágrafos acima (reconheço que não de forma clara) é que
existe uma falha na visão que temos da escola e de sua significância. Se
dissermos que a escola tem função de preparar
os alunos para a vida, estaremos então dizendo que aquilo que escola
oferece é para ser utilizado no futuro.
Ou seja, passamos nossa infância, adolescência e início da vida adulta dentro
de salas de aulas nos preparando para o que já está a nossa volta desde a nossa
primeira inspiração. É claro que nascemos incapazes. Ninguém nasce já pronto
para viver e a escola é o lugar onde teremos a maioria das informações
essenciais para nosso convívio social, mas não podemos ficar presos a uma
concepção de que nossa preparação é para o futuro. Nossa aprendizagem é para o agora
ou pelo menos, deveria ser.
A
escola nos compacta quando deveria nos fazer expandir. Seus métodos de
transmissão do conhecimento e de avaliação não são os mesmos que ocorrem na
vida cotidiana que sempre nos impulsionam para frente, porém, com a consciência
que o momento realmente importante é o agora. Enquanto que a escola nos motiva
a imaginar o futuro, mas seus conteúdos sempre nos remetem ao passado. Então chega o momento tão especial da Escola: a avaliação. Também chegam a nós, Provinha
Brasil, Olimpíadas de Matemática, de Língua Portuguesa entre tantas outras, mas
nenhuma tão importante quanto o ENEM.
Voltemos
ao início da conversa: final de semana agitado, onde cinco milhões de jovens
saíram de suas casas em direção às escolas para submeterem-se à avaliação
principal da escola fundamental para verificarem se estão preparados para a vida.
Enquanto aplicador, tive contato direto com 28 desses jovens (seriam 36, mas 8
se fizeram ausentes.) Um mar de Marianas e Marianes que para o sistema
são todas iguais, organizadas em ordem alfabética e diferenciadas apenas nos
números de suas inscrições. Garotas ansiosas, preocupadas, concentradas,
descontraídas, todas elas se acomodando nas carteiras desconfortáveis da
escola, procurando a melhor posição para responderem as 90 questões do importante exame. Duas tardes inteiras de um fim de semana às vésperas de um
feriado e lá estavam elas para o exame que oportuniza possibilidades para o
futuro. Algumas
já no quinto Enem, outras no primeiro. E os olhos percorriam as linhas do
cadernos de provas num silêncio incomum para uma escola, silencio esse que só
era quebrado com o som das embalagens de chocolates, batatas, bolachas, salgadinhos,
sucos, iogurtes, balas, pirulitos e água, muita água, numa tentativa de
disfarçar o nervosismo e se impor frente as outras porque são motivadas pelo
sistema a se reconhecerem ali como concorrentes. O que querem as Marianas e Marianes? Muito provável que nem mesmo muitas delas saibam. Foram motivadas a pensar na grande importância desse processo como se esse fosse mesmo capaz de avaliá-las e classificá-las dentro de uma média colocando-as no patamar de preparadas para a vida. Mas que vida? Que preparação? E por que a necessidade de exames? Já dizia a canção : "Vida, louca vida, vida breve já que não posso te levar que você me leve." As oportunidades são tantas e esse processo tem sido usado por faculdades, universidades, programas governamentais que oferecem a chance dessas jovens continuarem estudando. Ótimo. Que bom que a possibilidade de conhecimento é dada aos jovens e pelo fato de ficado nessa sala em específico, torço pelas Marianes e Marianas ( invertendo um pouco a ordem pra não parecer o governo, risos) que assistir. Torço também para que todas percebam o quanto a vida é valiosa. E o quanto é bom viver o agora, se preparando sim, mas não para o futuro, mas sempre para vida de todos os dias que não acontece dentro de salas escuras e pouco arejadas em cadeiras desconfortáveis e sim no lado de fora, no mundo de fora e que a vida breve as leve para onde todas querem chegar... À felicidade.