quarta-feira, 27 de maio de 2015

O RAPTO DO PAPAGAIO MUDO *

Numa tarde fria do inverno londrino o telefone toca. Atendo, é o meu amigo Sherlock me chamando para ajudá-lo a resolver mais um caso. Deveria apanhá-lo às 16 horas, mas ao chegar ao 221B, em Baker Street, ele não estava mais lá. O caso lhe parecia tão intrigante que não pode esperar-me os quinze minutos de atraso que a chuva e o caótico trânsito me impusera.
Mas afinal, quem se interessaria por um papagaio mudo? Esse era o mistério que Holmes deveria decifrar.
Cheguei às 17:20 horas na residência dos Clouds, meu amigo já terminando de tomar um chá, escutava com muita atenção o relato do Sr. Liar: Haviam passado o fim de semana no campo e ao voltarem, o estimado pássaro não estava mais em sua gaiola de prata. Outra coisa que o instigou a pensar: por que alguém levaria o bicho e não a gaiola?
A senhora Clouds, muito triste, quase não conseguiu dizer da última vez que vira seu papagaio. Trocara a água e punha alpiste suficiente para os dois dias que ficariam fora. Mal sabia que ao retornar na manhã da segunda-feira  não mais o encontraria, senão a gaiola vazia.
Nenhum sinal de arrombamento, nenhuma vidraça quebrada. Por onde haveria de ter entrado o tal raptor de ave?
O pequeno Eduard, filho do casal, não demonstrava emoção alguma. Parecia não se importar com o desaparecimento do papagaio.
Holmes nunca esteve tão embaraçado em toda sua carreira profissional. Parecia não conseguir imaginar solução para tal caso e veio me perguntar a minha opinião sobre o assunto. Nada tinha a dizer. Ele então sorriu em tom de sarcasmo e surpreendentemente apresentou a conclusão do caso:
 Elementar, Watson. Nada tem a dizer por que não há o que dizer. Como chegar a solução de um crime sem que ele tenha havido de fato? Quem passaria o fim de semana no campo em pleno inverno? Pra que sair da cidade para o campo  se não poderá aproveitar nada por conta das constantes e fortes chuvas? Também ninguém se interessaria em raptar um papagaio que nada fala. Nem mesmo o garoto tem apreço pela ave que não lhe traz divertimento algum. O que ocorreu foi que a Senhora Envy Clouds que usa brincos e pulseiras de bijuteria sente raiva de seu marido que deu ao papagaio uma gaiola de prata e ainda a faz cuidar da ave, obrigando-a e sentir menos importante. Por isso ela convenceu o marido contra a vontade a passar o fim de semana numa fria casa de campo sem lareira e deixando a porta da gaiola aberta, oportunizando a ave a sair para tentar se aquecer na lareira da casa da cidade.

O Sr. Liar Clouds impressionadíssimo perguntou a Holmes como ele solucionara tal mistério pelo que Sherlock Lhe disse que desde a hora que em que sua esposa lhe servira o chá ele percebeu marcas de carvão em sua mão, provavelmente de quando ela foi limpar os restos de pena do bichinho que morrera queimado enquanto tentava se aquecer do frio. E foi assim que o o mister Sherlock Holmes resolveu mais um mistério. 


* Escrita para meus alunos em sala de aula e terminada em casa na tarde do mesmo dia.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Felicidade gratuita

Em busca de prazer e satisfação, vamos pelo mundo gastando tempo, dinheiro e vida. A rotina é como uma prisão que nos limita os espaços e atitudes. Nos sufocando e sempre que há a oportunidade de fugirmos dela, assim fazemos para encontrar a satisfação que no cotidiano parece fugir de nós.
Existe, porém atitudes que nos trazem alegria, prazer, felicidade sem necessariamente precisarmos fugir da rotina. Não é preciso  gastar dinheiro nem sair do nosso lugar comum para satisfazer o nosso espírito e assim fazer com que também o corpo sinta paz. Os olhos são janelas da alma e existem prazeres que podem ser sentidos a partir da contemplação dos deles sobre algo. Pagar para ir a uma exposição de quadros famosos faz bem aos apreciadores dessa arte, mas parar e prestar atenção a um fim de tarde no outono não custa nada, no entanto, existe poucas coisas mais linda.
Habituamos a chamar de azul o céu, mas num fim de tarde podemos ver tantas cores que é impossível não se emocionar. Os raios do sol atravessando as nuvens e colorindo-as  em tons de laranja, violeta,  verde, vermelho, amarelo... É difícil citar todas as tonalidades possíveis de se ver. Um quadro de raríssima beleza, uma obra de arte indescritível gratuito a quem quiser ser feliz.
Dura pouco... Como qualquer outra coisa valiosa, não fica exposta por muito tempo, mas a sensação é de felicidade eterna porque o momento parece parar. Depois que ainda termos o céu estrelado, quem sabe com um lindo luar!

É quando percebemos que não é preciso sair a busca de felicidade, basta abrir a porta para ela. Basta abrir os olhos e ver que nas tardes ela vem até nós. 

terça-feira, 12 de maio de 2015

De repente

De repente no jardim
A mais linda e bela flor desabrochou
Seu perfume exalou
Estampando um sorriso em meu olhar

De repente dentro de mim
A tristeza que havia acabou
O vazio se cessou
Preenchido com felicidade e paz


O sol apareceu
Aqueceu meu coração
Eu tive uma razão para sorrir
O dia clareou
A vida coloriu
Eu tive uma razão para sorrir

De repente no jardim
Minha tão querida flor perdeu a cor
Seu espinho me feriu
Uma lágrima caiu do meu olhar

De repente dentro de mim
A alegria que havia se acalmou
Meu sorriso se cessou
Em meu rosto há uma expressão de dor


O sol se escondeu
O frio me abraçou
Eu tive um motivo pra chorar
A noite então chegou
O encanto se perdeu
Eu tive um motivo pra chorar

De repente o jardim
Volte então mais uma vez a florescer
Que a semente que ficou
Traga a primavera ao meu coração


E quando o sol voltar
Irá me aquecer
E um novo sorriso se verá