Numa tarde fria do inverno
londrino o telefone toca. Atendo, é o meu amigo Sherlock me chamando para ajudá-lo
a resolver mais um caso. Deveria apanhá-lo às 16 horas, mas ao chegar ao 221B,
em Baker Street, ele não estava mais lá. O caso lhe parecia tão intrigante que
não pode esperar-me os quinze minutos de atraso que a chuva e o caótico trânsito
me impusera.
Mas afinal, quem se interessaria
por um papagaio mudo? Esse era o mistério que Holmes deveria decifrar.
Cheguei às 17:20 horas na
residência dos Clouds, meu amigo já terminando de tomar um chá, escutava com muita
atenção o relato do Sr. Liar: Haviam passado o fim de semana no campo e ao
voltarem, o estimado pássaro não estava mais em sua gaiola de prata. Outra
coisa que o instigou a pensar: por que alguém levaria o bicho e não a gaiola?
A senhora Clouds, muito
triste, quase não conseguiu dizer da última vez que vira seu papagaio. Trocara
a água e punha alpiste suficiente para os dois dias que ficariam fora. Mal
sabia que ao retornar na manhã da segunda-feira não mais o encontraria, senão a gaiola vazia.
Nenhum sinal de
arrombamento, nenhuma vidraça quebrada. Por onde haveria de ter entrado o tal
raptor de ave?
O pequeno Eduard, filho do
casal, não demonstrava emoção alguma. Parecia não se importar com o
desaparecimento do papagaio.
Holmes nunca esteve tão
embaraçado em toda sua carreira profissional. Parecia não conseguir imaginar
solução para tal caso e veio me perguntar a minha opinião sobre o assunto. Nada
tinha a dizer. Ele então sorriu em tom de sarcasmo e surpreendentemente apresentou
a conclusão do caso:
Elementar, Watson. Nada tem a dizer por que não
há o que dizer. Como chegar a solução de um crime sem que ele tenha havido de
fato? Quem passaria o fim de semana no campo em pleno inverno? Pra que sair da
cidade para o campo se não poderá
aproveitar nada por conta das constantes e fortes chuvas? Também ninguém se
interessaria em raptar um papagaio que nada fala. Nem mesmo o garoto tem apreço
pela ave que não lhe traz divertimento algum. O que ocorreu foi que a Senhora Envy
Clouds que usa brincos e pulseiras de bijuteria sente raiva de seu marido que
deu ao papagaio uma gaiola de prata e ainda a faz cuidar da ave, obrigando-a e
sentir menos importante. Por isso ela convenceu o marido contra a vontade a
passar o fim de semana numa fria casa de campo sem lareira e deixando a porta
da gaiola aberta, oportunizando a ave a sair para tentar se aquecer na lareira
da casa da cidade.
O Sr. Liar Clouds
impressionadíssimo perguntou a Holmes como ele solucionara tal mistério pelo
que Sherlock Lhe disse que desde a hora que em que sua esposa lhe servira o chá
ele percebeu marcas de carvão em sua mão, provavelmente de quando ela foi
limpar os restos de pena do bichinho que morrera queimado enquanto tentava se
aquecer do frio. E foi assim que o o mister Sherlock Holmes resolveu mais um mistério.
* Escrita para meus alunos em sala de aula e terminada em casa na tarde do mesmo dia.
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